domingo, 3 de julho de 2011

Ex-presidentes homenageiam Itamar em Juiz de Fora

Sob vaias, o senador Fernando Collor (PTB-AL) deixou o velório do senador e ex-presidente Itamar Franco (PPS) em Juiz de Fora, a 260 quilômetros de Belo Horizonte. Collor chegou a cumprimentar algumas pessoas na fila para dar o último adeus a Itamar.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) saiu da Câmara Municipal de Juiz de Fora, onde ocorre o velório, e recebeu aplausos das pessoas que acompanham a movimentação na Praça Parque Halfeld, Centro da cidade. Lula permaneceu cerca de 30 minutos no velório e foi embora do local no mesmo momento em que o vice-presidente Michel Temer deixou a Câmara Municipal.


Os senadores Magno Malta, Sarney, o governador de Minas, Anastasia, o senador Collor, o ex- presidente Lula, o vice Michel Temer e o ministro Mercadante

Os ex-presidentes Lula, José Sarney e Fernando Collor de Mello e o ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, chegaram juntos, por volta das 12h15, ao velório do corpo do senador e ex-presidente Itamar Franco, na Câmara Municipal de Juiz de Fora, neste domingo.

O senador Magno Malta (PR-ES), ao deixar o salão da Câmara onde o corpo de Itamar está sendo velado, disse que "Itamar teve a coragem de enfrentar a inflação e criar o real". "Deixa um legado de coragem e de determinação.

Era um homem público probo neste país, um exemplo para uma juventude que está aí para assumir o País porque a fila anda, afinal de contas", acrescentou. "É uma perda grande, pois a figura de Itamar marca para nós o fim de uma época em que a gente saía pra comprar leite de manhã e à tarde o preço era outro, com 86% de inflação ao mês." Malta disse esperar que o ex-deputado e presidente do Cruzeiro, José Perrella de Oliveira Costa (PDT), o Zezé Perrella, que ficará com a vaga de Itamar no Senado, "seja honesto".

Mineiros homenageiam Itamar

O avião da Força Aérea Brasileira (FAB) que transportou o corpo de São Paulo para a cidade mineira pousou às 10h22. As filhas do ex-presidente, Georgiana Surerus Franco, 41, e Fabiana Surerus Franco, 39, desembarcaram em Juiz de Fora pouco antes, às 9h56, em outro avião da FAB. Elas estavam acompanhadas do ex-ministro-chefe da Casa Civil do governo Itamar, Henrique Hargreaves.

O governador de Minas Gerais, Antonio Anastasia, e o senador Aécio Neves receberam o corpo em Juiz de Fora. Aécio destacou a "retidão" do ex-presidente na vida pública e desejou sorte ao suplente de Itamar no Senado, Zezé Perrella (PDT), ressaltando que o perfil dele é "totalmente diferente".

Cerca de 750 policiais militares cuidam da segurança no velório do senador. Algumas ruas da cidade foram fechadas, em um esquema especial do cortejo.

Morte do ex-presidente

O senador, que havia contraído uma pneumonia grave durante o tratamento contra leucemia ao qual era submetido desde o dia 21 de maio, morreu neste sábado após ter um AVC. Ele era divorciado e deixa duas filhas.

Políticos brasileiros lamentaram a morte de Itamar. A presidenta Dilma Rousseff, que decretou luto oficial de sete dias, disse que recebeu a notícia com "tristeza" e que o senador "deixa trajetória exemplar de honra pública".

Trajetória

Nascido em 28 de junho de 1930 em um barco que ia de Salvador, capital baiana, para o Rio de Janeiro, capital fluminense, Itamar Augusto Cautiero Franco foi criado em Juiz de Fora.

Órfão de pai, teve infância pobre na cidade, localizada a 260 quilômetros da capital mineira, Belo Horizonte. Formou-se em engenharia e eletrotécnica pela Escola de Engenharia de Juiz de Fora, em 1955.

Antes de iniciar sua carreira política, foi auxiliar de estatística do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), topógrafo do Departamento Nacional de Obras de Saneamento (DNOS), diretor da Divisão Industrial de Juiz de Fora e do Departamento de Água e Esgoto de Juiz de Fora, eletrotécnico, industrial, engenheiro, servidor público e administrador.

Pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB), Itamar elegeu-se prefeito de Juiz de Fora em 1966 e 1972. No segundo mandato como prefeito, permaneceu por apenas um ano e deixou o cargo em busca de voos mais altos. Chegou ao Senado pela primeira vez em 1974, sendo reeleito em 1982. Em 1986, disputou e perdeu o governo de Minas para Newton Cardoso, hoje deputado federal pelo PMDB.

Real, Fusca e carnaval

Para candidatar-se a vice-presidente, Itamar filiou-se ao PRN em 1989, ano em que foi eleito na chapa encabeçada pelo ex-presidente e atual senador Fernando Collor de Mello (PRTB-AL). Com o impeachment de Collor, Itamar assumiu a presidência em dezembro de 1992, com inflação anual de 1.100%.

Em 1993, primeiro ano do governo Itamar, enquanto a inflação chegou a 6.000%, ministros da Economia passaram pelo desafio de estabilizar a moeda até que o ministro Fernando Henrique Cardoso apresentou a proposta de implementação do Plano Real. O plano deu certo. Com a inflação em queda, subia a popularidade de Itamar e de Fernando Henrique, eleito seu sucessor.

No mesmo ano, Itamar decidiu incentivar a venda de carros populares no Brasil e, por sugestão do presidente, a Volkswagen retomou a fabricação do Fusca, interrompida em 1986. A comercialização do carro não correspondeu às expectativas e o plano do presidente foi abortado prematuramente. Contudo, o “Fusca Itamar”, como ficou conhecido, até hoje reúne uma legião de apaixonados pelo modelo mais popular da história automotiva brasileira.

No carnaval de 1994, segundo e último ano de seu mandato, o então presidente Itamar Franco foi fotografado no camarote da Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, na Sapucaí, ao lado da modelo Lilian Ramos. A surpresa era que a jovem cearense, então com 27 anos, estava sem calcinha. As fotos da morena só de camiseta ao lado do presidente brasileiro foram publicadas em dezenas de jornais e revistas no País e do mundo. Apesar do discurso de escândalo adotado pela oposição, o episódio acabou rendendo uma série inesgotável de comentários bem humorados sobre o presidente.

Itamar inspirou cartunistas e cronistas com sua principal característica física, um topete minuciosamente penteado

De volta a Minas

Depois de deixar a presidência e eleger FHC seu sucessor, em 1994, Itamar foi eleito governador de Minas Gerais pelo PMDB em 1998. Polêmico, ele declarou moratória da dívida do Estado à União, por 90 dias, logo quando assumiu, em janeiro de 1999. Com a medida, ele comprou briga não apenas com o Governo Federal, mas também com outros Estados, temerosos com uma eventual desestabilização econômica.

Um dos argumentos utilizados por Itamar para declarar a moratória foi o de que a dívida de Minas com a União, à época em R$ 16,2 bilhões, não tinha como ser paga. Cerca de um mês após o comunicado, a União renegociou a dívida de Minas. A medida, entretanto, causou turbulência na sua relação com o então presidente FHC. Itamar também se posicionou contra a privatização de Furnas, à época em que governou Minas.

Quatro anos depois, apoiou a candidatura do hoje senador Aécio Neves (PSDB-MG), que se tornou governador e foi reeleito também com o apoio de Itamar. Quando terminou seu primeiro mandato no Senado, o ex-presidente tornou-se embaixador do Brasil na Itália, onde morou até 2005, por indicação do então presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP).

Ao regressar para o Brasil, em 2006, após tentativa fracassada de disputar o Senado, Itamar decidiu deixar o PMDB. Ele foi derrotado internamente em convenção por Newton Cardoso, para quem perdeu a disputa ao Governo de Minas em 1986. Candidato ao Senado, Newton perdeu a disputa para Eliseu Resende (PFL, atual DEM).

Em 2009, Itamar filiou-se ao PPS. No novo partido, concorreu novamente ao Senado por seu Estado e venceu, com o apoio de Aécio, derrotando adversários como o atual ministro de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel (PT). Atualmente, possuía grande influência na Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig). O presidente da companhia, Djalma Bastos de Morais, ocupa o posto desde o tempo em que Itamar era governador do Estado. Itamar estava afastado de suas atividades no Senado para tratar-se da leucemia em São Paulo.

* Com Agência Estado; Colaborou Nara Alves, iG São Paulo

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